As hepatites virais constituem um grave problema de saúde pública e integram a lista de doenças negligenciadas da ONU. Até 2030, a meta é reduzir os quadros de propagação da doença em todo o território nacional.
O mês de julho é lembrado em todo o país pela luta contra as hepatites virais. A infecção integra a lista de doenças negligenciadas da Organização Mundial da Saúde (OMS) e a data foi instituída no Brasil pela Lei nº 13.802/2019, com base na agenda global dedicada ao tema pela OMS.
De acordo com o Boletim Epidemiológico da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde (edição especial – julho/2025), foram confirmados, no período de 2000 a 2024, 826.292 casos de hepatites virais, sendo os tipos A, B, C, D e E os mais frequentes, se tornando um grave problema de saúde pública.
A distribuição dos casos se mostrou variada entre as cinco regiões do país. Enquanto a região Nordeste apresentou a maior proporção das infecções pelo vírus A (29,2%), o Sudeste manteve as maiores taxas dos vírus B e C, com 34,0% e 57,7%, respectivamente, seguindo-se da região Sul, com 30,9% e 27,0%. Já o Norte acumulou, no período, 72,4% do total de casos de hepatite D (ou Delta).
Entre os desafios enfrentados, está a meta de transformar radicalmente o cenário de propagação das hepatites em todo o território nacional até 2030, uma vez que o Brasil é uma das 38 nações para uma resposta focal às hepatites virais, segundo Relatório Global da OMS sobre Hepatite (2024).
Nesse cenário desafiador, iniciativas de destaque no combate e controle das hepatites virais vêm da região Norte, em Porto Velho-RO. A integração entre assistência, vigilância laboratorial e pesquisa científica tem sido fundamental para ampliar o acesso ao diagnóstico e fortalecer estratégias de enfrentamento, especialmente das hepatites B, C e Delta, muito comuns na região.

Integração entre assistência, vigilância laboratorial e pesquisa científica tem sido fundamental para ampliar o acesso ao diagnóstico
Por meio de parcerias, o laboratório de Virologia Molecular (LVM) da Fiocruz Rondônia e o Ambulatório Especializado em Hepatites Virais, vinculado ao Centro de Pesquisa em Medicina Tropical (Cepem/Sesau-RO), tem permitido o diagnóstico e o tratamento de pacientes provenientes de diferentes regiões da Amazônia.
Ao longo de três décadas, 8.385 pacientes foram acompanhados pelo Ambulatório, que se tornou referência no tratamento das hepatites virais crônicas na região Norte. Desse total, 5.098 pacientes foram diagnosticados com hepatite B; com hepatite C, 2.512; hepatite Delta, 339 pacientes, e 59 com hepatite A. Outras etiologias somaram 337 pessoas infectadas no período.
Os dados demonstram a elevada incidência das hepatites virais crônicas em Rondônia, com atenção para as hepatites B e C, além da presença significativa da hepatite Delta, doença de relevância epidemiológica na Amazônia com necessidade de diagnóstico especializado, estratégias específicas de vigilância e acompanhamento contínuo dos pacientes, muitas vezes com acesso aos serviços de saúde precário ou inviabilizado por barreiras logísticas, como é o caso de populações ribeirinhas e indígenas.
Diagnóstico molecular da hepatite Delta é modelo para o Brasil
Como resultado de experiências técnico-científicas, o Laboratório de Virologia Molecular da Fiocruz Rondônia se consolidou como Laboratório de Referência para o diagnóstico molecular e quantificação da carga viral do vírus da hepatite Delta (HDV) em parceira com o Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis do Ministério da Saúde (DATHI/SVSA/MS), desempenhando papel fundamental na implementação das estratégias nacionais para a ampliação do acesso ao diagnóstico molecular da doença.
Atualmente, o laboratório fornece suporte técnico a laboratórios parceiros, participa da implantação e padronização de protocolos laboratoriais e atua na capacitação de profissionais envolvidos no diagnóstico molecular das hepatites virais. Em recente premiação do Ministério da Saúde em Brasília, o projeto piloto de implantação do diagnóstico molecular da hepatite Delta ficou em segundo lugar como “experiência exitosa”, concorrendo com iniciativas de todo o país.
A pesquisadora em Saúde Pública e coordenadora do LVM-Fiocruz RO, Deusilene Souza Vieira Dall’Acqua, informou que essa atuação integrada entre assistência, vigilância e pesquisa fortalece o Sistema Único de Saúde (SUS) e permite que cada vez mais pessoas de áreas remotas e com quadros históricos de desigualdade tenham acesso a diagnósticos mais precisos, permitindo um melhor acompanhamento médico.
Isso contribui para a geração de conhecimento científico aplicado às necessidades da população brasileira e, no contexto regional, a união entre pesquisa e assistência representa um dos principais diferenciais das ações desenvolvidas pela Fiocruz Rondônia no enfrentamento das hepatites virais.
Texto e fotos: José Gadelha/LVM
