Deusilene Vieira, chefe do Laboratório de Virologia Molecular da Fiocruz Rondônia, afirma que o atual cenário não configura surto, contudo é necessário intensificar as ações de rastreio e monitoramento, além de ampliar o diagnóstico e conscientizar a população sobre as medidas de prevenção.

Laboratório de Virologia molecular realiza rastreio e monitoramento de doenças endêmicas na Amazônia
Rondônia segue em vigilância para os casos de mpox. Até 27 de fevereiro, 9 casos foram confirmados pela Agência Estadual de Vigilância em Saúde de Rondônia (Agevisa-RO). Os pacientes positivos foram atendidos no Centro de Medicina Tropical de Rondônia (Hospital Cemetron).
No país, a maior parte das infecções está concentrada em São Paulo. Rio de Janeiro e Rondônia vêm em seguida, acompanhados por Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Distrito Federal e Paraná, segundo o Ministério da Saúde.
Na internet, circulam diversas informações acerca do vírus. Mas, o que se sabe acerca dessa doença? Como ocorre a transmissão? Quais os riscos de a doença evoluir para casos mais graves? A mpox tem cura? De que forma é feito o diagnóstico e como se prevenir?
A pesquisadora em Saúde Pública e virologista Deusilene Vieira, chefe do Laboratório de Virologia Molecular da Fiocruz Rondônia, explica essas e outras questões. Leia a entrevista na íntegra:
O que a ciência já documentou sobre o surgimento da mpox?
Deusilene: A ciência tem contribuído com várias informações, como a origem do vírus, chamando a mpox zoonose viral pertencente ao gênero Orthopoxvirus. Esse vírus foi identificado pela primeira vez em 1958, quando dois surtos de uma doença parecida com a varíola ocorreram em colônias de macacos mantidas para pesquisa em Copenhague, Dinamarca. Essa descoberta deu origem ao nome “monkeypox”, embora hoje se saiba que macacos não são o principal reservatório natural, pois o vírus circula primariamente em pequenos mamíferos selvagens (como roedores) nas florestas tropicais da África Ocidental e Central.
O primeiro caso de mpox em humanos documentado aconteceu em 1970, na República Democrática do Congo, em uma criança com sintomas semelhantes aos da varíola. Desde então, casos esporádicos foram registrados em vários países da África Central e Ocidental, onde a doença é considerada endêmica. Desde 2003, vem ocorrendo relatos de surtos fora da África, nos EUA, associados a animais importados. Um salto importante na escala global ocorreu em 2022, quando um surto se espalhou rapidamente por dezenas de países em todos os continentes, sendo declarado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) uma emergência de saúde pública de interesse internacional devido ao aumento de casos humanos sem ligação clara com áreas endêmicas.
Quando surgiram os primeiros casos da mpox no Brasil?
Deusilene: O primeiro caso no Brasil ocorreu no dia 09 de junho de 2022 e foi divulgado pelo Ministério da Saúde e confirmado por meio de técnicas moleculares pelo Instituto Adolfo Lutz após realização de diagnóstico diferencial de detecção por PCR (Reação em Cadeia da Polimerase) do vírus varicela zoster (com resultado negativo), o sequenciamento confirmou o genoma do Monkeypox vírus. Este caso se tratava de um homem de 41 anos, residente na capital, que tinha histórico de viagem para Portugal e Espanha. Na época, todos os contatos do paciente foram monitorados pelas equipes de vigilância.
De que forma ocorre a transmissão?
Deusilene: A principal forma de transmissão da mpox ocorre por meio do contato direto pessoa a pessoa (pele, secreções) e exposição próxima e prolongada com gotículas e outras secreções respiratórias. Úlceras, lesões ou feridas na boca também podem contribuir, o que significa que o vírus pode ser transmitido por meio da saliva.
A infecção ainda pode ocorrer por meio do contato com objetos recentemente contaminados, como roupas, toalhas, roupas de cama, ou objetos de uso comum como utensílios e pratos, que foram contaminados com o vírus pelo contato com uma pessoa infectada. Já a transmissão por meio de gotículas, normalmente, requer contato próximo prolongado entre o paciente infectado e outras pessoas, o que torna os profissionais da saúde, familiares e parceiros íntimos, pessoas com maior risco de infecção.
Em Rondônia, tivemos 9 casos confirmados pela Agevisa (até 27 de fevereiro). Como a senhora avalia esses dados? É o momento de intensificar a vigilância, considerando que estamos numa região de longas fronteiras geográficas?
Deusilene: Esses casos não configuram surto, mas são um sinal de alerta epidemiológico importante para intensificar a vigilância virológica, expandir nossa capacidade diagnóstica e monitorar contatos de proximidade, pois a detecção precoce é essencial para evitar disseminação.
Quais são os principais sintomas e onde buscar atendimento adequado?
Deusilene: A mpox é uma infecção viral que pode apresentar sintomas iniciais semelhantes a outras doenças febris como: febre; dor de cabeça; dores musculares e no corpo; cansaço; aumento dos linfonodos (ínguas) e lesões na pele que aparecem inicialmente como manchas vermelhas e depois evoluem para outras fases como pápula → vesícula → pústula até a formação da crosta. Essas lesões costumam ser dolorosas e contagiosas, sendo o principal meio de transmissão. Ao surgirem sintomas suspeitos (febre + lesões de pele), é importante procurar avaliação em serviço de saúde (Unidades Básicas de Saúde e Unidades de Pronto Atendimento) e principalmente informar contatos próximos recentes para rastreamento epidemiológico.
Quais são as recomendações à população para prevenir a propagação de novos casos?
Deusilene: Para reduzir o risco de transmissão e evitar novos casos, as principais medidas são:
O que a experiência com a Covid-19 nos deixou e que vale a pena destacar diante desse atual cenário de transmissão da mpox?
Deusilene: A experiência com a Covid-19 deixou lições estratégicas extremamente valiosas que se aplicam diretamente ao cenário atual de transmissão da mpox, como fortalecimento da vigilância virológica e epidemiológica; diagnóstico molecular; divulgação científica e a integração das instituições públicas e de pesquisa para melhor estruturar estratégias para fortalecer o sistema de saúde no Brasil.
A mpox tem cura?
Deusilene: Sim. A mpox é uma doença geralmente autolimitada, o que significa que, na maioria dos casos, o próprio organismo elimina o vírus ao longo do tempo. A recuperação costuma ocorrer entre 2 e 4 semanas. Vale salientar que a maior parte dos pacientes apresenta quadro leve ou moderado. O tratamento, na maioria das vezes, é sintomático, com controle de dor, febre, hidratação e cuidados com as lesões. Em casos mais graves podem ser utilizados tratamentos mais específicos sob orientação médica.
O diagnóstico é feito no SUS? Qual a importância de buscar esse atendimento em casos suspeitos?
Deusilene: Sim. O diagnóstico da mpox é realizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), por meio de instituição de referência da rede pública. A confirmação laboratorial é feita principalmente por teste molecular (PCR), utilizando material coletado das lesões cutâneas.
Reforço que o diagnóstico precoce evita a transmissão para outras pessoas e garante acompanhamento clínico adequado, especialmente em grupos de risco, assim como viabiliza rastreamento de contatos, medida essencial para interromper cadeias de transmissão.
A Fiocruz participa de alguma forma da vigilância/diagnóstico?
Deusilene: Sim, a Fiocruz Rondônia possui infraestrutura e expertise para a caracterização molecular e vigilância genômica da mpox. No Laboratório de Virologia Molecular, que já realiza o rastreio e monitoramento de outras doenças endêmicas na região, estaremos recebendo na próxima semana kits moleculares para a detecção de mpox e, nesse sentido, também poderemos apoiar a Secretaria de Estado da Saúde (Sesau) com esses diagnósticos.
